terça-feira, 9 de março de 2021

Cúpula inteiramente feminina faz história na Polícia Civil

Desde que ascenderam aos cargos de Delegada-Geral e Delegada-Geral Adjunta da Polícia Civil da Bahia, Heloísa Campos de Brito e Elâine Nogueira da Silva passaram a fazer parte de um – cada vez maior – rol de mulheres que são inspiração para futuras profissionais, tanto da segurança pública quanto de outras áreas do conhecimento. Não que ambas já não fossem referências para familiares, amigos e colegas, mas a nomeação da primeira Delegada-Geral da história da Instituição inaugurou uma nova fase para as duas como figuras públicas e, sobretudo, como parâmetro de sucesso profissional. Neste Dia Internacional da Mulher, elas contaram um pouco de suas trajetórias e destacaram o que pretendem deixar de legado na gestão da Polícia Civil da Bahia, onde exercem a direção superior. Até chegar à cúpula da PCBA, tanto Heloísa quanto Elâine trilharam seus caminhos passando por quase todos os setores da Instituição – com algumas coincidências, inclusive. Ambas começaram em unidades operativas do Departamento de Polícia do Interior (Depin) e, depois de alguns anos, integraram os quadros do Departamento de Polícia Metropolitana (Depom). Na história das duas, também constam passagens pela Corregedoria da Polícia Civil (Correpol), juntas, e pela Academia da Polícia Civil (Acadepol), separadas. Entre 2017 e 2019, Heloísa foi Delegada-Geral Adjunta, cargo que já havia sido ocupado por Emília Blanco, anos antes, e que teve Ana Carolina Midlej como antecessora de Elâine. No entanto, agora as duas maiores posições na administração, que representam órgãos autônomos na estrutura da Polícia Civil, são compostas por mulheres – como lembra a atual Delegada-Geral. “A escolha de Dra. Elâine não foi feita em razão do gênero, e, sim, em razão da competência técnica, da mesma forma que eu acho que isso foi o que levou o governador a optar pelo meu nome. Mas é óbvio que isso é um marco – não só para as mulheres, mas também para a sociedade, para que as outras mulheres consigam olhar para nós e para que nós sirvamos de inspiração, para que elas entendam que, se uma mulher pode comandar a Polícia Civil da Bahia, com cerca de 5,6 mil servidores, elas também podem estar no lugar que escolherem, na atividade que elegerem para desenvolver”, declarou.
Reproduzindo a sintonia do cotidiano, Elâine opinou no mesmo sentido. “O meu crescimento e a nossa ascensão, juntamente com outras mulheres que hoje ocupam funções importantes não só dentro da Polícia Civil, têm o poder de impactar e inspirar outras mulheres. Então, neste Dia Internacional da Mulher, em que temos uma Delegada-Geral e uma Delegada-Geral Adjunta, a principal mensagem talvez seja essa: inspirar e impactar o crescimento de outras mulheres”, afirmou. Até que as duas chegassem ao topo da estrutura organizacional da PCBA, passaram-se cerca de 20 anos – um pouco mais, no caso de Heloísa, e um pouco menos, no caso de Elâine. Nomeada em 1996, a atual Delegada-Geral fez parte de uma geração que marcou a transição entre a era dos delegados ‘calça-curta’ – indicados sem formação jurídica – e a dos servidores de carreira.
“Tomei posse e fui para uma cidade pequena chamada Ubaíra. Quando eu cheguei, havia um policial, um escrivão ad-hoc, da Prefeitura, e mais dois Guardas Municipais. Aquela era a equipe que compunha a delegacia naquele momento. E as pessoas estavam muito acostumadas à Polícia ser coordenada por delegados homens. Uma das frases que eu me lembro foi deste policial que trabalhava lá. Quando eu o orientei a fazer um procedimento, ele me respondeu que só de polícia ele tinha mais tempo do que eu tinha de idade – o que realmente era verdade, mas que, com jeitinho, eu fui equacionando, colocando as coisas da forma como eu acreditava que deveriam ser feitas”, contou.
“É fato que a polícia é vista como uma instituição masculina, porque as pessoas sempre a associam à questão da força, e não àquilo que ela realmente é: técnica e investigação, no caso da Civil. O que eu senti de preconceito foi das partes que chegavam e procuravam falar com o delegado. E às vezes eu me colocava à disposição e eles, talvez em razão do perfil físico, falavam: 'Não, minha filha, não quero falar com você não, só serve o delegado'. Isso aconteceu algumas vezes, mas, obviamente, depois eu dava até risada. A maior estranheza era em relação ao público, que imaginava encontrar um homem, ou uma mulher com o aspecto senhoril, pois normalmente eles associavam o cargo a uma mulher que tivesse uma apresentação mais voltada para o masculino”, acrescentou Heloísa. De acordo com a atual Delegada-Geral Adjunta, a turma de 1996 foi fundamental por abrir espaço e permitir que as mulheres dos concursos seguintes enfrentassem menos resistência inicial por parte do público. Nomeada em 2002, quando a secretária de Segurança Pública era a delegada Kátia Alves, Elâine já tinha diversas referências positivas na instituição. “Eu não senti esse preconceito. Quando entrei, já sabia da história de mulheres delegadas importantes, como Iracema de Jesus e Emília Blanco, que já tinham grande respeito por parte da classe e de outros órgãos de defesa social. Indo para o interior, acho que o fato de sermos mulheres despertava mais curiosidade do que preconceito. Então, foi algo que eu não senti. O concurso anterior ao meu, que foi o de Dra. Heloísa e de outras colegas que hoje estão na direção da Polícia Civil, caso de Dra. Cristiane Inocência [no Depom] e Dra. Rogéria Araújo [no Depin], teve muitas mulheres que assumiram Coordenadorias Regionais, e eu entendo que, quando cheguei, os caminhos já haviam sido abertos”, disse. Elâine também ressaltou que teve o apoio dos amigos e da família para ingressar na carreira policial – o que, segundo ela, pode ter sido resultado de um ambiente familiar formado por mulheres de personalidade forte. “Minha filha, inclusive, era pequena, e achou o máximo ter uma mãe delegada, uma mãe que portasse arma. Eu entendi desde o início que fui motivo de orgulho de todas essas pessoas com quem eu convivia, pelo fato de estar escolhendo uma carreira tão nobre quanto a de delegada. Isso só me incentivou a fazer a prova e a permanecer na casa, porque, quando a gente entrou, os salários não eram atrativos, e a ideia que tínhamos era de que iríamos continuar estudando para fazer concurso para outras carreiras jurídicas – o que não foi o meu caso. O meu foi de entrar, ficar, gostar e querer contribuir o máximo para essa instituição que exerce um papel tão nobre e tão importante para a sociedade”, acrescentou a Delegada-Geral Adjunta. Heloísa também não via a carreira de delegada como uma certeza, pelos mesmos motivos apontados por Elâine. Mas, já na primeira experiência, ainda no interior, a sensação mudou bruscamente. “Acabei me apaixonando pelo fazer policial, porque consegui descobrir como a gente pode ajudar as pessoas, como consegue transformar a sociedade em um lugar mais seguro e mais justo. O que fez com que eu permanecesse até hoje nos quadros da Polícia Civil foi essa paixão que desenvolvi pela profissão”, disse.  Os 25 anos de carreira levaram Heloísa Campos de Brito do posto de novata que causava estranheza ao público para o de Delegada-Geral da Polícia Civil – uma trajetória que demonstra também as alterações pelas quais passou a sociedade e a própria PCBA. Como gestora e artífice das próximas mudanças da Instituição, ela explicou como espera deixar um legado.
“O que eu pretendo é que seja uma gestão que trouxe avanços para a Polícia Civil, em termos de normatização e em termos de conquistas institucionais. Sempre acreditei muito na hierarquia, em se fazer o que é certo, em padronizar procedimentos, rever legislações, colocar a legislação em consonância com o momento que a sociedade vive. Nós vamos trabalhar durante esses dois anos para atualizar procedimentos, para fortalecer a instituição, para nos apropriarmos dos nossos métodos e equipamentos de investigação, porque isso se reflete no fortalecimento institucional, formando cada vez mais uma Polícia Civil técnica, que desenvolva suas atividades com qualidade, competência e eficiência. Esta é a referência que quero deixar ao fim destes dois anos: que se olhe para a Polícia Civil da Bahia e se veja como avançamos na questão da qualidade do atendimento ao cidadão, na questão do tratamento às mulheres vítimas de violência, no cuidado com o nosso servidor policial e também em como avançamos em nos apropriarmos dos instrumentos de investigação existentes”, concluiu.
Ascom-PC/Felipe Paranhos

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