terça-feira, 5 de julho de 2022

Cacau-Cabruca - Laboratório da Uesc demonstra possibilidade de amenização dos efeitos das mudanças climáticas no cultivo


O cacau, principal produto agrícola do sul da Bahia, é uma planta bastante sensível a limiares de temperatura e precipitação. Esta exigência climática explica em parte o sucesso da lavoura nesta região, que, por quase dois séculos, tem sido a principal produtora de cacau no Brasil. Mas esta “bonança climática” não deve ser mantida a longo prazo. Pelo menos é o que mostra a modelagem feita pela equipe do Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação (Leac), da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Em artigo publicado recentemente na prestigiada revista científica “Agronomy for Sustainable Development”, os pesquisadores da Uesc elaboraram modelos climáticos com dois cenários distintos para o ano de 2050, um mais ameno e outro mais pessimista. Em ambos, haverá uma mudança grande no regime de precipitação e de temperaturas extremas que devem comprometer a adequabilidade climática da região ao cultivo do cacau. Isso ocorre porque os cacaueiros são particularmente sensíveis à deficiência hídrica e temperaturas extremas e, portanto, exceder estes limites de tolerância leva à mortalidade de árvores jovens e a perda de rendimento. “Em ambos os modelos prevemos mudanças significativas que reduzirão muito a qualidade climática desta região ao cultivo do cacau”, diz Deborah Faria, uma das autoras do estudo, docente do Departamento de Ciências Biológicas da Uesc e coordenadora do Leac. O estudo analisa que o impacto destas mudanças climáticas seria alterado a depender do tipo de sistema de cultivo, especificamente, o cacau produzido em agroflorestas tradicionais, as chamadas cabrucas, ou através do sistema de monocultivo a pleno sol, uma tendência em outras regiões devido à maior produtividade em curto prazo. O estudo prevê que, independentemente do sistema de cultivo, haverá uma perda da área climaticamente adequada para a produção de cacau nos dois cenários climáticos. Porém, essa perda será muito maior caso o cacau a pleno sol predomine. Especificamente, a pesquisa prevê que apenas 26% da área atual seja climaticamente viável para produzir cacau a pleno sol; enquanto se as plantações se mantiverem no sistema cabruca, 63% da área ainda terá adequabilidade climática para o cacau. Isso se dá pelo importante papel do sombreamento em manter a estabilidade climática da plantação para esse fruto. Segundo Neander Heming, autor principal do estudo e pós-doutorando da Uesc, “a presença de árvores sombreadoras no sistema cabruca pode manter a temperatura até 6°C mais baixa do que em plantações a pleno sol, amenizando os extremos de temperatura experimentados pelo cacaueiro”. O estudo, que também teve a participação da Dr.ª Daniela Talora (DCB/Leac/Uesc) e Dr. Goetz Schroth (Conservation International), indica que o cultivo tradicional de cacau-cabruca, além de vários outros benefícios já pesquisados pela equipe do Laboratório, também diminui os efeitos negativos das mudanças climáticas para as plantações de cacau da região. Portanto, o cacau-cabruca pode ser chamado de cultivo climate-smart (ou agricultura inteligente em matéria de clima), sendo uma estratégia fundamental na adaptação climática da região.

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